Watergate: divisor de água
Paulo Thiago
O caso célebre do “assalto” ao edifício comercial de watergate em Washington, Estados Unidos, representou para todo o mundo principalmente para aquele país um marco histórico na prática da atividade jornalística e no que se relaciona a credibilidade política da sociedade ao governo norte-americano.
Na noite de 17 de junho de 1972, cinco ladrões usando luvas de borrachas e equipamentos de espionagem invadiram o prédio da sede do partido democrata em Washington. O seu objetivo era instalar aparelhos de escutas e obter informações do partido que fazia oposição ao governo do então presidente Richard Nixon. Este grupo era mantido pelo governo através de poderosos aliados e chefes políticos, valendo dizer que a ramificação desta atividade não se restringiu a fazer pequenas operações, pois o que estava em jogo era a reeleição do presidente Nixon.
Pegos em flagrante pelos seguranças do prédio, os assaltantes que eram ex-agentes da FBI eram mantidos assim pela máquina do governo presidencial. Dessa forma os julgamentos dos mesmos se prolongaram durante anos. A mídia pela ausência de fatos novos ou mesmo pela ausência de ética e responsabilidade social, se isentou de dar maior cobertura ao escândalo, salvo uma equipe jovem de repórteres do jornal Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein.
Estes jornalistas através de uma atitude ousada e persistente contrariavam de certa forma a linha editorial do jornal ao se prolongar em demasia num mesmo “fato”. Buscando a todos os custos e formas novas fontes que pudessem ligar o acontecido a outras coisas, os repórteres muitas vezes encontravam-se em dificuldade devido a ausência de conexões entre os fatos e boatos já apurados por eles.
É aí que entra em jogo a figura misteriosa e universal do “Garganta Profunda”. Este termo foi utilizado durante muito tempo para designar a fonte secreta e anônima de Woodward. O encontro com esta fonte era sempre rodeado de mistério, enigmas e intrigas –como foi revelado no filme “Todos os Homens do Presidente”. Os encontros eram marcados pelo jornalista toda vez que ele colocava uma bandeira vermelha em um vaso na varanda do seu apartamento. Mas, o que chama atenção é a questão de como este jornalista obteve acesso a esta fonte e que durante 30 anos ele jurou não revelar o nome.
Somente em 31 de maio deste ano o Washington Post revelou a identidade da famosa fonte. Na reportagem do jornal, o ex-funcionário do FBI (polícia federal dos EUA) Mark Felt, 91 anos, é dito como a fonte segura que passou informações e maiores esclarecimentos à impressa do caso Watergate.
O impacto político de todo este caso foi muito grande. A repercussão de que o comando de governo do presidente e do próprio, estar envolvido no caso de grampos telefônicos e de outras atividades de espionagem, levou a Suprema Corte a tomar medidas políticas. Ela encaminhava uma proposta de impeachment ao presidente em 1974 principalmente pelas acusações de obstrução a justiça, desacato de ordens judiciais e abuso de poder, quando Nixon em 9 de agosto do mesmo ano se antecipou e renunciou ao cargo.
Acabava aí o governo do líder republicano, eleito em 1968 e reeleito em 1972, e uma das mais graves crises políticas registradas por aquele país.
A imprensa
Fica registrado então o papel da impressa nesse escândalo político que culminou na renúncia de um presidente corrupto e na condenação de várias outras pessoas que estavam direta e indiretamente ligadas a toda a falcatrua. Woodward e Bernstein, fizeram um trabalho penoso ao investigar de forma acirrada e perigosa todos os elementos que culminaram no produto final. Para se ter uma idéia disso, da famigerada expressão do jornalismo investigativo, eles vasculharam informações em todos os lugares possíveis, entrevistaram pessoas envolvidas num esquema estratégico de fazer os entrevistados sempre falar mais alguma coisa, correram risco de vidas, se dedicaram ao estudo da notícia e analisaram muito os discursos dos envolvidos.
O que se pode tirar disso tudo são conclusões a respeito do exercício do jornalismo a serviço da sociedade sobretudo e da ética profissional. Quanto a ética, podemos dizer que em muitas vezes foi necessário por exemplo subornar alguém para obter algum tipo de informação exclusiva, ou mesmo do jornal está omitindo nos seus artigos as fontes das quais está se obtendo as informações. Será que o melhor caminho para se alcançar êxito numa grande investigação é a trilha da omissão da transparência? Será que o público, o leitor, não tem direito de saber como as notícias foram produzidas, assim como as influências e interferências que elas sofreram? Outra coisa que pode gerar discussões acerca deste jornalismo é o fato de algumas reportagens baseiar-se em boatos, comentários soltos que era justificado apenas pelo fator verbal, dando assim a impressão como foi observado também em algumas vezes no filme que retrata o caso Watergate. A idéia de mentira, de uma notícia sem argumentos. Por isso que uma questão surge: até que ponto vale levantar e registrar um comentário verbal, importante até, sabendo que depois o próprio autor do discurso vai fugir da responsabilidade e da autoria?
Por outro lado, o jornalismo investigativo dos dois repórteres foi além dos outros. Sempre com seu caderno de anotações em mãos eles procuram resquícios de informações em todo o canto. Analisaram todo o governo daquela época, bem como
estudaram as teias de relações que havia entre os chefes políticos. Tudo o que um bom jornalismo pede, porque eles estavam realmente reportando a notícia, pesquisando os fatos. Realidade esta muito difícil nos tempos atuais.Visto que as nossas redações se encontram despreparadas para enfrentar uma boa investigação, seja pelo fator financeiro seja pelo fator de que elas necessitam e sofrem interferência editorial cada vez mais da penetração do capital dos anunciantes.
Porém o jornalismo não consiste em grampos e fitas, como afirma o jornalista Aberto Dines, “jornalismo fiteiro”. A atividade jornalística deve funcionar de forma racional, imparcial e autônoma em todas as suas decisões editoriais. Manter relações de escambo não é a nossa saída, trocar vantagens pela posse de uma fita comprometedora nem “sempre” é a saída (fui um pouco paradoxo agora).
Conseqüências
O caso de Watergate com certeza representou muito para o jornalismo e principalmente para a população norte americana. Estudos passaram a serem feitos a parti da renúncia de Nixon e eles comprovavam o que já se esperava: os cidadãos dos EUA mudaram os seus comportamentos diante da imagem e a pessoa do presidente. A credibilidade agora é questionada por muitos.
Para a imprensa, o caso, o escândalo, representou aumento da vendagem diária dos exemplares e também da credibilidade do jornal Washington Post. Iniciava aí em escala mundial uma nova fase do jornalismo, o jornalismo investigativo.
O caso célebre do “assalto” ao edifício comercial de watergate em Washington, Estados Unidos, representou para todo o mundo principalmente para aquele país um marco histórico na prática da atividade jornalística e no que se relaciona a credibilidade política da sociedade ao governo norte-americano.
Na noite de 17 de junho de 1972, cinco ladrões usando luvas de borrachas e equipamentos de espionagem invadiram o prédio da sede do partido democrata em Washington. O seu objetivo era instalar aparelhos de escutas e obter informações do partido que fazia oposição ao governo do então presidente Richard Nixon. Este grupo era mantido pelo governo através de poderosos aliados e chefes políticos, valendo dizer que a ramificação desta atividade não se restringiu a fazer pequenas operações, pois o que estava em jogo era a reeleição do presidente Nixon.
Pegos em flagrante pelos seguranças do prédio, os assaltantes que eram ex-agentes da FBI eram mantidos assim pela máquina do governo presidencial. Dessa forma os julgamentos dos mesmos se prolongaram durante anos. A mídia pela ausência de fatos novos ou mesmo pela ausência de ética e responsabilidade social, se isentou de dar maior cobertura ao escândalo, salvo uma equipe jovem de repórteres do jornal Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein.
Estes jornalistas através de uma atitude ousada e persistente contrariavam de certa forma a linha editorial do jornal ao se prolongar em demasia num mesmo “fato”. Buscando a todos os custos e formas novas fontes que pudessem ligar o acontecido a outras coisas, os repórteres muitas vezes encontravam-se em dificuldade devido a ausência de conexões entre os fatos e boatos já apurados por eles.
É aí que entra em jogo a figura misteriosa e universal do “Garganta Profunda”. Este termo foi utilizado durante muito tempo para designar a fonte secreta e anônima de Woodward. O encontro com esta fonte era sempre rodeado de mistério, enigmas e intrigas –como foi revelado no filme “Todos os Homens do Presidente”. Os encontros eram marcados pelo jornalista toda vez que ele colocava uma bandeira vermelha em um vaso na varanda do seu apartamento. Mas, o que chama atenção é a questão de como este jornalista obteve acesso a esta fonte e que durante 30 anos ele jurou não revelar o nome.
Somente em 31 de maio deste ano o Washington Post revelou a identidade da famosa fonte. Na reportagem do jornal, o ex-funcionário do FBI (polícia federal dos EUA) Mark Felt, 91 anos, é dito como a fonte segura que passou informações e maiores esclarecimentos à impressa do caso Watergate.
O impacto político de todo este caso foi muito grande. A repercussão de que o comando de governo do presidente e do próprio, estar envolvido no caso de grampos telefônicos e de outras atividades de espionagem, levou a Suprema Corte a tomar medidas políticas. Ela encaminhava uma proposta de impeachment ao presidente em 1974 principalmente pelas acusações de obstrução a justiça, desacato de ordens judiciais e abuso de poder, quando Nixon em 9 de agosto do mesmo ano se antecipou e renunciou ao cargo.
Acabava aí o governo do líder republicano, eleito em 1968 e reeleito em 1972, e uma das mais graves crises políticas registradas por aquele país.
A imprensa
Fica registrado então o papel da impressa nesse escândalo político que culminou na renúncia de um presidente corrupto e na condenação de várias outras pessoas que estavam direta e indiretamente ligadas a toda a falcatrua. Woodward e Bernstein, fizeram um trabalho penoso ao investigar de forma acirrada e perigosa todos os elementos que culminaram no produto final. Para se ter uma idéia disso, da famigerada expressão do jornalismo investigativo, eles vasculharam informações em todos os lugares possíveis, entrevistaram pessoas envolvidas num esquema estratégico de fazer os entrevistados sempre falar mais alguma coisa, correram risco de vidas, se dedicaram ao estudo da notícia e analisaram muito os discursos dos envolvidos.
O que se pode tirar disso tudo são conclusões a respeito do exercício do jornalismo a serviço da sociedade sobretudo e da ética profissional. Quanto a ética, podemos dizer que em muitas vezes foi necessário por exemplo subornar alguém para obter algum tipo de informação exclusiva, ou mesmo do jornal está omitindo nos seus artigos as fontes das quais está se obtendo as informações. Será que o melhor caminho para se alcançar êxito numa grande investigação é a trilha da omissão da transparência? Será que o público, o leitor, não tem direito de saber como as notícias foram produzidas, assim como as influências e interferências que elas sofreram? Outra coisa que pode gerar discussões acerca deste jornalismo é o fato de algumas reportagens baseiar-se em boatos, comentários soltos que era justificado apenas pelo fator verbal, dando assim a impressão como foi observado também em algumas vezes no filme que retrata o caso Watergate. A idéia de mentira, de uma notícia sem argumentos. Por isso que uma questão surge: até que ponto vale levantar e registrar um comentário verbal, importante até, sabendo que depois o próprio autor do discurso vai fugir da responsabilidade e da autoria?
Por outro lado, o jornalismo investigativo dos dois repórteres foi além dos outros. Sempre com seu caderno de anotações em mãos eles procuram resquícios de informações em todo o canto. Analisaram todo o governo daquela época, bem como
estudaram as teias de relações que havia entre os chefes políticos. Tudo o que um bom jornalismo pede, porque eles estavam realmente reportando a notícia, pesquisando os fatos. Realidade esta muito difícil nos tempos atuais.Visto que as nossas redações se encontram despreparadas para enfrentar uma boa investigação, seja pelo fator financeiro seja pelo fator de que elas necessitam e sofrem interferência editorial cada vez mais da penetração do capital dos anunciantes.
Porém o jornalismo não consiste em grampos e fitas, como afirma o jornalista Aberto Dines, “jornalismo fiteiro”. A atividade jornalística deve funcionar de forma racional, imparcial e autônoma em todas as suas decisões editoriais. Manter relações de escambo não é a nossa saída, trocar vantagens pela posse de uma fita comprometedora nem “sempre” é a saída (fui um pouco paradoxo agora).
Conseqüências
O caso de Watergate com certeza representou muito para o jornalismo e principalmente para a população norte americana. Estudos passaram a serem feitos a parti da renúncia de Nixon e eles comprovavam o que já se esperava: os cidadãos dos EUA mudaram os seus comportamentos diante da imagem e a pessoa do presidente. A credibilidade agora é questionada por muitos.
Para a imprensa, o caso, o escândalo, representou aumento da vendagem diária dos exemplares e também da credibilidade do jornal Washington Post. Iniciava aí em escala mundial uma nova fase do jornalismo, o jornalismo investigativo.

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